Cão
Mal nasce o sol e sou chamado a nascer também. As portas do comércio ao qual em frente eu me abrigava, ergueram-se, e de lá, mais uma vez fui escorraçado. Sonolento, com a visão embaçada e sobre minhas quatro patas, vou contente atrás do lanche matutino. A lixeira que sacia a minha fome diariamente está vazia, foram mais rápidos novamente... Ah “quisesse” eu ser humano: dono do tempo, dono do lixo, dono de mim, consciente da minha existência, cheio de idéias inspiradoras regadas de sabedoria plena. A vida é confusa para um cão, ouço muitas coisas que minha inteligência canina não é capaz de atingir, logo não consigo entender se realmente há alguma utilidade em algumas dessas palavras, que parecem movimentar a realidade humana “A vista” “A prazo” “um real” “real”. Driblando a fome e as dúvidas, vou seguindo meu rumo, muitos seres existentes cruzam por mim, alguns, na verdade, a grande maioria deles, ignora o meu ser, talvez para eles, eu realmente não exista, mas o fato é que eventualmente, não me sinto um ser inexistente, me sinto pensante, quase humano, mas poucos me direcionam um olhar. Para mim, chega a ser contraditório, afinal eu estou aqui e sinto e existo. Sinto fome e sinto frio e sinto medo e questiono a minha realidade que embora canina seja uma verdade.
Meu dia transcorre sem grandes acontecimentos, sendo muitos invisíveis aos olhos de um cão. Minha inteligência permite-me compreender o mundo em partes: como se eu visse o todo sem alguns pedaços, ou através das chamas de uma vela, ainda um quebra-cabeça sem peças fundamentais. Foi num momento aí, desses monótonos dias que captei um acontecimento que me revelou uma realidade desconhecida, me fez achar uma peça do quebra-cabeça e ao uni-la ao restante, fui capaz de enxergar o quão somos todos de um significado tão igual. O sol estava partindo, e eu resolvi me abrigar sob o banco de um parque, olhei ao longe e lá estava outro ser, outro cão arrumando os trapos para se aninhar como eu, como um cão invisível aos olhos humanos, inexistente, insignificante, inconsciente, dotado de um olhar pidão refletor de toda a solidão. Mas o que me trouxe essa realidade absurda foi quando aquele Ser imponente ergueu-se e lá estava ele: enorme sobre duas patas, sim, duas únicas patas, não, ele não era um cão... parecia, vivia com um, mas não era....